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☆poemasEleonoraMarinoDuarte☆edição&arteWalkyriaSuleiman☆
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30 de nov. de 2012

Despejo






Sou só
lida
solidão

Imposta
como porta
posta

Ou cadeado
ao
portão

Arquitecto
secreto
refúgio

Aquieto
duro o
coração

Concreta
mente
findo, fujo


Saio
da casa
de nós

Secreta
mente
ainda sonho:

Só
espero
sóis





foto: MárciaBorlengui da série Cadeiras Itinerantes

1 de jun. de 2012

Decomposta


A mulher que fui
está morta
pelas preliminares

Definitivo desmaio
de um Maio
no Hotel Residence...

A mulher está morta
No Hotel Tudor,
talvez em um Outubro.

Matou-se na sede
do mar, no mês
sem vez de salvamento...

Vestígios do litígio
afogados
nos beijos na boca,

Jaz perdida nas salinas
das lágrimas
pendidas do seu corpo

o coração à frio não pulsa,
ele e ela
mais de quarenta vezes juntos

ou duas, já nada me lembro
da mulher
que fui, morta de espera.....






foto: MarianaTeixeira - Still do curta-metragem "Velar",  de NanaRibeiro

15 de mai. de 2012

Descaso


























Aponto um horizonte
sem linhas, desponta,
desaponta meu futuro.

Sobra-me da luz, réstia,
fulgura a figura, resta
gravura seca na cruz...

Salivo vontades, língua,
linguagem à mingua
sorvo o fel de calar.







foto: MarianaTeixeira - Still do curta-metragem "Velar",  de NanaRibeiro

4 de mai. de 2012

Solidão





Somos patéticas paredes
em nossa crua colmeia
na urbana casa murada,

Urubus sobre os telhados
como gárgulas a zelar
a miséria tão humana!

Escondo-me, esconde-te,
encapsulados, empilhados,
filtrados por interfones...

Sobre mim, todo o mundo,
dentro de mim, ninguém.
Fossem de vidro as paredes...

Toco de concreto, tijolos,
só há nudez na argamassa
miolo da minha intimidade,

Não te vejo, não te sei,
nem tu me sabes, sei.
Fadadas almas separadas,

Empoleirados no pombal,
habituados com a cidade,
desabitados do sentimento,

Isolados, desabituamos...
Salva-nos a vidraça
nos instantes da janela.






foto: MarianaTeixeira - Still do curta-metragem "Velar",  de NanaRibeiro

12 de abr. de 2012

Séfira












Toda dor se acaba
em virada inversão

A saída é chegada
na volta ao portão

Não conta tempo
reter sentimento

Solidão é a utopia
de estrada vazia

córrego em temporal
é só chuva e lamaçal

De tudo o que pensas
somadas só as crenças

Não sobra nada
água estagnada.

















foto: DanielSuleiman

26 de mar. de 2012

Milímetro










Exibo íntima sessão,
cinema cinestésico
para aqui relembrar-te,

Uma película tão carnal
de orgasmos, rasgos,
deixa estragos à pele…

A tela é cela sentimental
o teu rosto, o teu sexo,
meu séquito de desejos,

Na última cena nossa
ignoro toda a memória,
você não parte, beija…

Então gozo, comemoro,
imploro: Deixa-me afogar
em tuas águas leitosas...


















foto: MarianaTeixeira  -  Still do curta-metragem "Velar", de NanaRibeiro

10 de mar. de 2012

Kali


























Sou um drástico planeta,
o cometa que se suicidou
na tentação da luz definitiva!

Por uma fala furtiva de Deus
pulsei na vaga da lua sem lei
dilacerando coisas ao calar.

Amar nunca valeu a pena,
minha alma, fora de cena,
volta ao pó que do pó eu sei.











foto: CatharinaSuleiman★JustSmoke3

3 de fev. de 2012

Ts'Ai Lun

                                                  Palavras traçadas sem linha
                                                  tua pele que é de raro papel
                                                  faz Babel da minha língua!

                                                  Fulgura tua gravura branca
                                                  estanca em meus olhos luz
                                                  raiz de alcaçuz aos lábios...

                                                  Incompreensível aos outros
                                                  tangível aos teus ouvidos
                                                  escrevi por ti um dicionário nu.












Foto: CatharinaSuleiman

23 de jan. de 2012

Hot

Um anseio desfila
em tua perna nua
na dobra da coxa

Bebem do veneno
na sobra da saliva
os que comentam

Não temas, só trame,
se desviras as pernas
eles reviram os olhos...









foto: BeatrizMasson★Pernósticas

19 de jan. de 2012

Wicca

Suave, sonhava a mão
sobre teu belo pescoço
como poço da alegria
como posse de um amor.

Bebia da fonte de tua boca
hoje oca cálida sobre a face
uma seiva viva de desejo
a flutuar entre os nós de nós

Tuas raízes plantaram-me
além de solo, além de dor
uma funda vontade de ser
a estrada que se faz junto.





foto: MárciaBorlengui

26 de dez. de 2011

Elipse























Preso em concreto
está quieto o peito
que um dia fora
eleito à imensidão.

Tantos vales de velas
vertidas nas pedras,
perdidos pedidos
acesos na escuridão...

Carpido nó estreito,
o coração sofrido
como último gemido
respira da lua o clarão.










foto: MárciaBorlengui

1 de dez. de 2011

Calle de La Reina

  


            Soberba, a sombra se impõem
            a paisagem. De passagem avisto,
            incomum como divindade sem véu,
            a mulher em estado de posse!

Dela se habilitam os moços e eu,
imagem de desejo em carne e fé
imantando a rua nas delícias profanas,
enchendo a calçada de vivas flores.
  
                                                  Está em mim, ela que é rainha ali,
                                                  estou nela, eu que sou a rainha de mim.
                                                  Mas por onde quer que vá, sem trégua,
                                                  traz o infortúnio de ser a soberana de si!








foto: MárciaBorlengui - da série Cadeira Itinerante

3 de nov. de 2011

Voronja


Deixa quieta a mulher que sofre
ela não se reconhece, não geme
não flui, não cansa, não causa
não teme, não flora, não chora.

Deixa quieta para que esqueça
o quanto amou ao vácuo inútil
do outro e do outro e do outro,
esqueça-se dela, definitivamente.

Ela não vai mais sair da gruta
a vida é bruta e ela é fragil
ela não vai mais querer amor
nem amor, nem amor, nem amor.






foto: MárciaBorlengui - canon analógica

5 de out. de 2011

Retráctil

          Dizem-me frágil,
          osso sobre o pó
          em sopro ao vento.

                            Penso-me forte,
                            pedra sobre pedra
                            em solo fóssil.

                                              Tantas certezas
                                              alheias a mim  
                                              abrem abismos...









foto: as walkyrias # 03 - CatharinaSuleiman

21 de set. de 2011

End














Vento de nós e voz
torres de isolamento

Alguém me grita uma vez
e eu me abro ao teu revés

Do alto de um tempo, eu,
templo existido e partido

desfigurado, resconstruído
como aquele fim sem fim.







foto: MárciaBorlenghi - canon analógica com aquarela digital

25 de ago. de 2011

Nativa




























A mulher nua é como uma Vênus
que naufraga da fragata das hora

Sobrevive além das contagens
sem que se prenda o movimento

Nem o tempo, nem o espaço
comprometem a pureza original

Entre ela e o desejo só os olhos
dos marujos saudosos de pele e sal.







foto:CatharinaSuleiman

30 de jul. de 2011

On-the-road


Cantam meus amores
a estrada que percorri,

Não se cala o caminho
se somos tantos em um,

Não tenho paradeiro
mas mapas e destinos,

Se o sonho se consumir
tenho outro escondido,

Na mochila de lírios
um bom plano de fuga...







foto: MárciaBorlengui

22 de jul. de 2011

Egrégio


A luz da tarde se rende ao teu rosto

sagrando a feição como adorno raro,

não por acaso adoro-te como guia.

A cor que vem de ti sublima o dia

como se tudo fosse puro e primeiro.

Se violarem os tratados de paz

ou sucumbirem à guerra os povos,

aquieta-os, tu tens tal poder!

Pois tu te moves como quem renasce

e te perdes como quem se doa,

o mundo não tem resistências ao teu Dom.






foto: MárciaBorlengui

7 de jul. de 2011

Maracajá


Um dia me comentaram forte
e forte fui até ranger a ruína.

Infiltraram-se dentro do dia
os dias que passaria triste

Não percebi que se desfigurava
a parede da língua e seus parques

Saborosos vícios se perderam ali,
fui inútil ao ponto de indiferente.

Tensas contrações do ventre
cessaram sem nada parir

Densas camadas de poeira
encobriram o meu nome...

Uma luz de bicho no portal
forjou o recomeço de fera

Em correntes de ar e fogo,
sobrevivi a mim e aos outros.

Não tem tempo o meu tempo
agora sou a potência que sou!








foto: MárciaBorlengui

30 de jun. de 2011

Vigília













Entre os tecidos, ali está ela,
a mulher em estado límpido!
Recém amada, corpo dormente,
alma solta, os santos à volta.

Submersa em si, longe de todos,
nas carícias que ainda lhe são
adormecidas quenturas corpóreas
em sono profundo de núpcias.

Permanece por um instante assim,
mergulhada nas águas do sonho,
abandonada aos trigos imaginários
correndo nua por um campo nu.

Ressurgirá após essa eternidade
revelando segredos difusos da luz,
sussurrando um novo dialeto
trazido da outra esfera das coisas...

Caberá a ele ler nos lábios um beijo
segundos antes de ela renascer,
de sorrir acordada, senhora de si,
definitivamente de volta para o mundo.










foto: CatharinaSuleiman